Editor Ramiro Veríssimo
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Considerar a doença como uma coisa em si mesma, com uma causa única ou quando muito como resultando de uma combinação simples de causas é de certo modo cómodo na medida em que se a doença se dever a um factor estranho ao indivíduo, isolado ou isolável, este pode ser atacado, exorcizado ou extirpado de maneira simples.
Resultando directamente no escamoteamento sistemático dos factores psicológicos e sociais dos pacientes, este é o fundamento conceptual que subjaz à maior parte da actividade médica actual.
O movimento psicossomático, de certo modo recuperando para este século a tradição humanista milenar da medicina, resulta da atitude de muitos médicos que insistem em considerar o ser humano na sua globalidade, não descurando o estado psicológico ou as circunstâncias sociais.
E se bem que esta orientação seja mais ou menos difusa, dela têm vindo a resultar inúmeras linhas de investigação bem como postulados e orientações para um exercício da medicina que, do diagnóstico à terapêutica e à prevenção, considere o paciente como um todo.
A relação mente-corpo tem conhecido variadíssimos modelos conceptuais ao longo do tempo.
Mas se é indiscutível que o conhecimento evoluiu enormemente nos últimos 300 anos, e muito particularmente neste último século, não é menos verdade que o pensamento médico actual ainda se encontra profundamente determinado pelo dualismo interaccionista cartesiano (1615).
No entanto, em contraponto, a psicossomática considera que quer a mente quer o corpo são abstracções do que conhecemos como pessoa (Woodger, 1956).
Não querendo com isto dizer que os fenómenos psicológicos são mais importantes ou causais do que os somáticos. Ou vice-versa. Mas tão somente que ambos os tipos de fenómenos são diferentes aspectos, ou modos de abstracção, da pessoa humana, sendo e respondendo esta como uma unidade - unitarismo bimodal (Russel, 1912; Feigl, 1958).
A psicossomática refere-se assim a uma área integrativa das ciências naturais especificamente orientada para a investigação das relações entre fenómenos biológicos, sociais e psicológicos, considerando estes três níveis como diferentes vertentes abstraídas da pessoa humana.
Comporta uma vertente psicofisiológica, uma psiconeuroendocrinológica, e uma relativa aos aspectos psicossociais do stress.
Enquanto medicina psicossomática refere-se a uma praxis que toma em consideração factores biológicos, psicológicos e sociais do paciente, do diagnóstico ao tratamento e à prevenção de toda e qualquer doença.
A psicossomática é pois, por outras palavras e em resumo, a disciplina que trata de integrar os fenómenos biológicos, psicológicos, e sociais, por si considerados como três modos de abstracção.
Esta integração pode efectuar-se a nível da investigação das correlações entre os três tipos de variáveis, e temos então a psicossomática como ciência.
Ou pode efectuar-se a nível da praxis médica, e temos então a orientação psicossomática em medicina ou medicina psicossomática.
Postulados (Lipowsky, 1969):
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- Saúde e doença são estados determinados por múltiplos factores biológicos, psicológicos e sociais, sem que haja uma clara linha de demarcação entre eles
- Os fenómenos de qualquer nível organizacional, do molecular ao simbólico, podem repercutir-se em todos os outros níveis
- O diagnóstico não deve confinar-se a uma entidade clínica mas antes considerar mais além a situação total do paciente
- Ao delinear medidas preventivas e terapêuticas devem ter-se em consideração os factores psicossociais
- A relação entre o paciente e os que dele se ocupam influencia a evolução da doença e a eficácia do tratamento
- A eficácia psicoterapêutica deve ser considerada sempre que possam estar significativamente envolvidos factores psicológicos na precipitação, manutenção ou exacerbação duma determinada doença numa dada pessoa
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